Há algum tempo que estou a tentar copiar uma entrevista que saiu na revista do Público a 12 de Fevereiro de 2005 por Laurinda Alves. O texto é bastante extenso por isso não o mostrarei integralmente. É só uma pitada, quem quiser aprofundar as ideias deste psiquiatra espanhol pode mergulhar nas suas obras.
"
Psiquiatra de referência da actualidade, Enrique Rojas trabalhou em Nova Iorque com os familiares das vítimas e os sobreviventes do 11 de Setembro. Autor de inúmeros livros, é conhecido por teorizar sobre a felicidade.É muito ambicioso teorizar sobre a felicidade, porque que é que decidiu escrever a sua teoria?
Primeiro trata-se apenas de uma teoria e não da teoria sobre a felicidade. Aquilo que escrevi é a visão de um psiquiatra espanhol que tem um ponto de vista particular sobre esse assunto. Da mesma maneira que Ortega e Gasset, filósofo espanhol, dizia que cada ser humano é uma visão da realidade, também esta é mais uma maneira de contemplar um tema eterno.
Qual é a sua particularidade?A particularidade é que, para mim, a felicidade consiste em duas coisas: ter uma personalidade equilibrada e ter um projecto de vida. Isto, note-se, com três grandes valores incluídos: amor, trabalho e cultura. Em minha opinião a felicidade é o resultado de quatro grandes temas: a forma de ser, a vida afectiva, a vida profissional e a cultura.
Apesar de parecer uma soma simples, é uma matemática complexa…Bem, a felicidade não consiste em somar e ter cada vez mais, mas na administração inteligente dos nossos desejos.
É preciso educar o desejo, então?Insisto que, para mim, a felicidade consiste numa boa relação entre o que desejei e o que consegui.
Podemo-nos educar para a felicidade?Efectivamente podemos. E como se pode educar? Tendo muito claro que quem não sabe o que quer não pode ser feliz. E saber o que queremos significa capacidade para ter objectivos, metas e planos concretos, coisa que acontece em cada um destes quatro grandes temas de que falei. A personalidade, por exemplo, é o cartão de visita de cada um de nós e, por isso, ter uma personalidade madura é um trabalho essencial. Em segundo lugar, a vida afectiva, ou seja, no campo dos sentimentos é importante conseguir um bom equilíbrio. Em terceiro lugar a vida profissional. Hoje há dois extremos: as pessoas que não têm trabalho e as pessoas que só têm tempo para trabalhar e a ideia é tentar viver num ponto intermédio. Em quarto lugar, a cultura: importa perceber que a cultura é a estética da inteligência.
Pode definir melhor este conceito?A cultura é a curiosidade em ir crescendo por dentro, alargando os horizontes da nossa paisagem interior. Isto significa que cada um deve tentar nutrir-se de arte, literatura, pintura, poesia, fotografia…
Porque tudo isso é transformador?Claro, muda o ser humano e, nesse sentido, a cultura é liberdade. Os clássicos diziam in libertas perfundet omnia luce que em latim, significa “ a liberdade enche tudo o que é luz”. A liberdade e a cultura são duas chaves essenciais para a felicidade. No mundo actual há muito pouca cultura porque a cultura precisa de tempo.
No seu livro fala da cultura da mediocridade.È a cultura da classe média, que está muito associada à linguagem da televisão. O desejo apaixonado de conhecer a vida dos famosos, especialmente quando ocorre menos bem, é um sintoma desta cultura da mediocridade. Cada vez interessa mais a vida alheia dos conhecidos e interessa particularmente quando está desfeita ou em existem crises. Há morbidez no divertimento. Pôr o olho na fechadura e espreitar a vida dos ricos ou dos famosos para perceber que eles também choram e também sofrem é negativo. E medíocre.
Medíocre porque se trata de aderir a programas e pessoas de quem não se conhece uma ideia nem obra feita?Exactamente. Não têm ideias nem fizeram obra mas são conhecidos porque aparecem na TV. Acredito que uma pessoa de prestígio é uma pessoa que tem uma vida harmoniosa, que se torna sugestiva ou atractiva porque revela coerência, porque ensinou alguma coisa aos outros ou deu um exemplo notável. E esta é que é a diferença. O problema é que a nossa sociedade está muito perdida. Os modelos de identidade são medíocres e muitas pessoas copiam esses modelos.
Voltando atrás, falava de quatro partes fundamentais em nós. Como, por definição, somos seres incompletos, pergunto como podemos tentar fazer mais e melhor?Bem, é uma tarefa gradual e progressiva. Ou seja, o ser humano é e será sempre uma sinfonia incompleta. O homem é um animal descontente e, por isso, trata-se de não desistir de tentar ser mais feliz.
É este o nosso motor de vida?È importante ter um programa, um projrcto de vida. Como disse há pouco, a felicidade consiste em ter um projecto de vida e o projecto de vida é um programa no qual eu introduzo os principais ingredientes segundo o meu ideal individual de felicidade.
Parece infinitamente mais fácil de dizer do que fazer…É preciso não esquecer que eu, como psiquiatra, passo o dia a ver pessoas infelizes. Escrevi sobre a felicidade a partir da quantidade de vidas desgraçadas que vejo. Tentando dar o meu contributo para mudar a vida das pessoas para melhor.
Como é a sua vida?Bem, sou um homem de cinquenta e muito anos, estou casado com uma notaria, tenho cinco filhos, tenho muito trabalho como médico, passo muitas horas aqui neste consultório, tenho uma boa equipa que trabalha comigo e sinto-me feliz porque tenho uma trabalho que me preenche, do qual gosto, que consiste em ajudar as pessoas a superarem as suas depressões, ansiedades, insónias, dificuldades. Neste sentido sou um homem realizado e feliz. "